Em mais uma rodada de negociação em torno da taxa básica de juros, o Copom decidiu manter a Selic em 14,25% ao ano. As alegações dos diretores da instituição, é que a redução da Selic dependerá da velocidade de recuo da inflação nos próximos meses e da aprovação das medidas de ajuste fiscal.

"Essa é a nona vez consecutiva em que o Copom decide que a taxa deve permanecer inalterada. A taxa permanece a mesma desde julho do ano passado. O governo trabalha com a possibilidade da taxa de juros começar a cair somente em 2017. Se isso acontecer, estaremos começando um 2017 cheio dos mesmos problemas, com o agravamento da recessão, aumento do desemprego e uma quebradeira generalizada da indústria e comércio", avisa Canindé Pegado, presidente do SINCAB.

O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira (31) manter, mais uma vez, a taxa básica de juros (Selic) em 14,25% ao ano. Apesar de a decisão ter sido esperada pelo mercado, chamou a atenção dos economistas o trecho do comunicado em que os diretores da instituição detalharam as condições necessárias para que os juros comecem a cair.

A redução da Selic dependerá da velocidade de recuo da inflação nos próximos meses – inclusive da persistência dos efeitos do choque nos preços dos alimentos– e da aprovação das medidas de ajuste fiscal, segundo o documento. Para o Banco Central, esses fatores podem dar mais confiança de que a meta de inflação de 4,5% em 2017 será atingida e, assim, abrir espaço para a flexibilização da política monetária.

Conforme revelou a Folha nesta quarta, a equipe do presidente Michel Temer já trabalha com a possibilidade de a taxa de juros começar a cair só no próximo ano, diante do ritmo ainda lento de queda da inflação e da demora na aprovação das medidas fiscais propostas pelo governo.

O Palácio do Planalto considera o cenário de a proposta do teto de gastos só ser aprovada pelo Congresso Nacional no próximo ano, por causa das eleições municipais de outubro. Com a confirmação de sua permanência no cargo, que ocorreu também nesta quarta-feira, Temer tentará acelerar a tramitação da proposta no Legislativo, o que, segundo a avaliação da equipe, pode melhorar a expectativa do mercado em relação à economia e contribuir para uma queda na inflação.

 

REGRA DO JOGO

Com o comunicado desta quarta, o Copom "deixou mais clara a regra do jogo" e indicou que não está com pressa para reduzir a taxa de juros, segundo a avaliação de Tatiana Pinheiro, economista do Banco Santander. "Ele está sinalizando que a flexibilização depende de uma série de fatores que não estão vendo agora. É a indicação de que o plano de vôo do Banco Central não tem uma ansiedade de início de flexibilização monetária."

O Santander projeta redução dos juros para 13,75% na última reunião deste ano, em novembro. Tatiana afirma que isso dependerá, no entanto, da tramitação da proposta do teto dos gastos. "Sumir incerteza eu entendo que é aprovar. Enquanto não aprovar, continua com incerteza", disse.

A proposta está em uma comissão e depois ainda precisa da aprovação nos plenários da Câmara e do Senado.

A economista-chefe da Rosenberg Associados, Thaís Zara, enxerga que só em 2017 o Banco Central encontrará o cenário que considera necessário para começar a reduzir os juros. "Achamos que essas condições só estarão presentes no ano que vem. Até 30 de novembro [última reunião do Copom em 2016], não deve ser possível", afirmou.

A reunião desta quarta foi à segunda sob o comando de Ilan Goldfajn e da nova diretoria do Banco Central. Na reunião anterior, em julho, os diretores também mantiveram a Selic em 14,25% ao ano. O Copom, que se reúne a cada 45 dias, ainda tem mais duas reuniões em 2016, em outubro e em novembro.